“Ele deu 13 facadas na barriga da própria filha”, diz tia de jovem morta após denunciar o pai por estupro

O sorriso largo da são-paulina Letícia Tanzi, de 13 anos, e os longos cabelos pretos que chamavam atenção de toda São Roque (SP), deixarão de passar na timeline dos amigos do oitavo ano do ensino Fundamental. O motivo? O próprio pai teria esfaqueado a menina 13 vezes na barriga, na última quarta-feira (3), após a filha recusar-se a retirar uma queixa de estupro contra ele na polícia. A polícia não confirma esse número de facadas que a adolescente levou, porque ainda aguarda o laudo do IML (Instituto Médico Legal). A informação foi dada por uma das tias da garota.

Horácio Nazareno Lucas, de 28, tinha acabado de ser solto, depois de condenado a oito anos de prisão por estupro de vulnerável, contra uma tia da garota, que é deficiente mental. Uma outra tia da menina, que pediu para não ser identificada por questões de segurança, tentou por várias vezes segurar o choro para contar essa história trágica à Universa.

“Quando minha irmã Tamires começou a se relacionar com o pai da minha sobrinha, os dois foram morar na casa dos nossos pais, em São Roque. Uma irmã nossa, que tem deficiência mental, também vivia com eles. Quando a Letícia tinha cinco anos, ela viu o Horácio abusando da minha irmã, hoje com 27 anos, e ela contou tudo para a mãe e os avós. Todo mundo acreditou, menos a Tamires.

Foi aberto um inquérito na delegacia em 2010 para investigarem o caso, mas mesmo assim ele continuou morando com a Tamires e a Letícia, em outro lugar. Não vou julgar a minha irmã aqui. Ela era jovem, apaixonada.

As investigações seguiram e em 2016 o Horácio foi condenado a oito anos de prisão por estupro de vulnerável mas, como eles tinham se mudado, a polícia não conseguiu cumprir a ordem de prisão. E nós só descobrimos essa condenação recentemente.

Depois do ocorrido com a nossa irmã, a Tamires engravidou de novo e o Horácio parecia ter melhorado, se arrependido do que fez. A Letícia passou a viver muito mais com parentes próximos, e menos em casa. Ela estava sempre feliz. Era uma menina doce, e acreditamos que queria esquecer o assunto.

Há quatro meses, o Horácio foi parado numa blitz e, quando a polícia puxou a ficha dele, viu que tinha uma ordem de prisão. Só aí ficamos sabendo da condenação. Ele foi para a cadeia em junho. A polícia, então, foi conversar com a família. O conselho tutelar foi até a escola de Letícia, e ela disse que queria que o pai continuasse preso porque ele a estuprava havia um ano.

Foi um choque para todos. Chorei muito. Perguntei porque ela não contou para mim, que era, além de tia, sua amiga. Ela disse: ‘tia, eu não tive coragem porque ele me ameaçou, tentou me sufocar’. Depois de ter contado tudo, minha sobrinha passou por psicólogos, e estava se sentindo mais segura com ele preso.

Ainda estamos tentando entender por que ele saiu da cadeia. Acho que conseguiu responder o processo em liberdade. Isso foi na terça-feira (2). No dia seguinte, ele foi na casa da família. Minha irmã mora numa chácara, afastada, no meio do mato, onde trabalha como caseira. Ela me contou que ele foi pedir desculpas, mas queria que a Letícia retirasse a queixa de estupro.

Como minha sobrinha se recusou a retirar a queixa, o Horácio agrediu a minha irmã. Ele deu um soco nela e tentou sufocá-la, mas Letícia impediu o pior. A Tamires, então, correu para pedir socorro na vizinhança. Ela nunca iria imaginar que o pai fizesse o que fez com a própria filha. Quando voltou, a polícia já estava no local.

O meu sobrinho mais novo foi trancado no quarto pelo pai, mas viu o sangue da irmã escorrendo por debaixo da porta. Ele conseguiu abrir outra porta e saiu para a rua para pedir ajuda também.

Letícia foi encontrada na cama, ensanguentada. Ele deu 13 facadas na barriga da própria filha. As mãos estavam cortadas, provavelmente porque ela tentou se defender. E a boca estava ferida. Parecia que tinha levado um soco. Ela chegou a ir para o hospital, mas não resistiu.

Nunca percebemos nada estranho na Letícia. Se ela ou minha irmã tivessem apanhado, teríamos visto as marcas, os hematomas. E minha sobrinha estava sempre sorrindo. Hoje entendo porque ela gostava de se ausentar de casa, por que só queria ficar com parentes. Era uma fuga.

Tamires ainda está muito abalada e não consegue nem falar. Ela agora tem um filho pra cuidar sozinha. Ainda não caiu a ficha para meus pais. A Letícia era a neta perfeita para eles. Ela estava feliz, cursando o oitavo ano, amava fazer churrasco, sair para comer pizza, ficar com a gente. Ela passava uma alegria incrível, mesmo sofrendo por dentro.

Não imagino a dor que minha irmã está sentindo. Prefiro acreditar que Letícia está num lugar melhor”.

Sem antecedentes

O caso segue na delegacia da mulher de São Roque. Informações no local dão conta de que Horácio é considerado foragido. O TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) informou, por nota, que Horácio não tinha antecedentes criminais, trabalhava e tinha residência fixa, e que por isso não havia necessidade de prisão cautelar enquanto se apurava a denúncia de estupro contra a cunhada, em 2010.

“Razão pela qual lhe foi aplicada a medida cautelar diversa da prisão, a qual foi cumprida pelo réu durante todo o período em que tramitou o processo”, explicou o TJSP.

Quando condenado, Horácio poderia ainda recorrer da decisão em liberdade, mas no momento da intimação da sentença, ele não estava mais no endereço comunicado, e por isso determinou-se sua prisão assim que encontrado. “O juiz corrigiu a situação reconhecendo o problema da intimação, abrindo-se novo prazo recursal, e expedindo-se o alvará de soltura”, finaliza a nota.

Segundo o TJ, não há advogado nomeado para representar Horácio. Procurada, a defesa que atuou no caso de estupro contra a cunhada dele, em 2011, José Francisco Guzzon, informou não ter mais contato com ele.

“Não tive mais notícia. Não sei como ele conseguiu uma saída, que foi a que causou toda essa tragédia. Mas acho que ele ainda não tem advogado para esse inquérito que investiga o crime contra a filha, porque ainda não se formalizou a investigação”, explicou Guzzon.

Fonte: BOL