Adolescente assume ser lésbica em testemunho e igreja desliga microfone

No dia em que Savannah arrumou coragem para falar diante de sua congregação
mórmon, em maio passado, ela não disse tudo que queria.
A menina de 12 anos contou aos demais membros da Igreja de Jesus Cristo dos
Santos dos Últimos Dias que é lésbica. “Nenhuma parte de mim é um erro”, ela
disse durante um encontro de testemunhos, um evento mensal de sua igreja em
Eagle Mountain, no Estado de Utah. “Eu não escolhi ser assim, e não é algo
passageiro”.
Quando Savannah, hoje com 13 anos, se aproximava do fim de sua fala, depois que
ela já havia se assumido a seus colegas de culto, seu microfone foi desligado. Ela
deu uma batidinha nele e depois olhou para um líder da igreja para ver o que havia
acontecido.
Ele disse que ela poderia voltar ao seu lugar.
“Acho que eles fizeram isso porque não queriam minha mensagem”, disse
Savannah em uma entrevista por telefone na quarta-feira (21). “Não quero ser
maldosa com eles se isso não for verdade, mas senti que eles ficaram com medo
de mim e do que eu estava dizendo.”
A história do discurso de Savannah começou a se espalhar para além de Utah
depois que o blog “I Like to Look for Rainbows” (‘eu gosto de procurar por arco-íris’)
—inspirado na letra de uma canção mórmon, e dedicado a “experiências mórmon
gays”—publicou uma entrevista com Savannah em um podcast em maio. Ele
destacou uma questão com a qual os mórmons gays têm lutado há anos: como
equilibrar sua sexualidade com os ensinamentos de uma igreja que proíbe
relacionamentos gay.
O criador do blog, Britt Jones, disse que ficou surpreso com como a história atraiu
tanta atenção.

“O motivo pelo qual fiz isso era tentar amplificar as vozes dos mórmons gay”, ele
disse. “Então se ela puder expor sua história, acho ótimo. A história dela é superinspiradora
e super-necessária neste momento.”
O bispo da igreja de Savannah não respondeu ao e-mail solicitando comentários.
Um porta-voz da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Último Dias não quis
comentar.
Savannah contou a seus pais que ela era lésbica pouco depois de completar 12
anos, disse sua mãe, Heather Kester, que pediu para que o sobrenome de
Savannah não fosse divulgado para proteger sua privacidade.
Nos encontros de testemunhos, que são realizados com frequência em igrejas
mórmons no primeiro domingo de cada mês, os fiéis são encorajados a “expressar
verbalmente o que ele ou ela sabe ser verdade a respeito da divindade de Jesus
Cristo, a restauração da completude de seu evangelho em nossos tempos, e as
bênçãos que advêm de viver seus princípios”, de acordo com a Enciclopédia do
Mormonismo.
Kester disse que sua filha vinha pedindo há meses para se identificar como lésbica
em um desses encontros.
“Por fim decidimos deixar que ela contasse, porque não queríamos tirar sua voz”,
ela acrescentou. “E se lhe ensinássemos hoje que ela não podia falar, então talvez
ela guardasse isso consigo pelo resto da vida.”
Savannah disse que decidiu fazer seu discurso porque a vida pode ser difícil para
pessoas que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgênero.
“Houve muitos homicídios ou mortes, e muitos deles foram expulsos de casa por
não serem aceitos por seus pais, e isso é muito difícil”, ela disse. “Então eu queria
ver mudanças.”
A igreja mórmon considera pecado quando duas pessoas do mesmo sexo se casam
ou “violam a lei da castidade”. Mas, nos últimos meses, a igreja tem afinado seu
discurso quanto à permissibilidade do que ela chama de “atração pelo mesmo
sexo”.
Em outubro, o site oficial da igreja inaugurou uma nova seção dedicada aos
mórmons gays ou bissexuais e suas famílias. “Identificar-se como gay, lésbica ou
bissexual ou sentir atração pelo mesmo sexo não é pecado e não proíbe que
alguém participe da igreja, siga sua vocação ou frequente o templo”, diz o website.
Mas esse discurso veio menos de um ano depois de a igreja ter revelado uma
política que compara o casamento gay com apostasia e que impede filhos de pais
gays de frequentarem a igreja até a idade de 18 anos. Essa política não mudou, o
que significa que os comentários de Savannah no encontro do mês passado, que
incluíram seus sonhos de se casar como uma lésbica e constituir família, entravam
em conflito com a doutrina mórmon oficial.
Alguns críticos do discurso de revelação de Savannah contesttaram mais do que
simplesmente seu conteúdo, argumentando que um encontro de testemunhos não é
lugar para discursos preparados, e que Savannah é jovem demais para entender
todo o efeito de suas palavras, agora imortalizadas em um vídeo na internet.
“Isso não tem a ver com uma garota em conflito com sua sexualidade, ou com a
forma como um líder religioso lidou com isso”, escreveu Scott Gordon, presidente
da FairMormon, uma ONG que defende a fé mórmon de seus críticos, em uma

“Esse é um caso claro de apropriação de um encontro,
promovendo ensinamentos falsos, e explorando a inexperiência de uma criança
para criar um evento midiático.”
Comentários como esses a magoaram, disse Kester. “Tem sido difícil, mas no final
acho que pode acontecer uma mudança positiva na igreja por causa disso”,
acrescentou.
Na última parte de seu discurso escrito—a parte que nunca foi lida no encontro de
testemunhos—Savannah, que ainda se considera membro da igreja, explicava que
ela estava pensando sobre como encontrar a felicidade.
“Eu tinha sonhos de frequentar o templo e me casar, e fiquei muito triste quando
descobri que isso nunca ia acontecer para mim”, ela escreveu em suas anotações.
“Hoje eu escolhi encontrar minha alegria fora dos meus antigos sonhos de quando
eu era pequena. Tenho novos sonhos e sei que meus pais que estão na Terra e
meus pais que estão no Céu me amam e me aceitam do jeito que eu sou. Amém.”